
Por Fernando Real*
Completa 100 anos o Professor Michel Pinkus Rabinovitch. Nascido em 22 de março de 1926 na Lapa, em São Paulo, membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Grande Oficial e Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico, ele é um dos gigantes da ciência brasileira, oriundo de uma geração de cientistas que marcou profundamente a ciência biomédica brasileira e internacional, como Victor e Ruth Nussenzweig, Luiz Hildebrando Pereira da Silva, Isaias Raw, entre outros.
A biografia de Michel é rica e amplamente documentada. Destacou-se como um dos mais eminentes biólogos celulares brasileiros, com contribuições pioneiras à histoquímica, biologia celular e parasitologia. Este artigo é menos sobre o que é sabido e documentado sobre sua figura e mais sobre o quanto é inspirador e engrandecedor tê-lo ao lado, fenômeno que construiu e impulsionou cientistas seus alunos, privilegiados por seu companheirismo e mentoria científica ao longo de mais de 70 anos de carreira.
Filho de imigrantes, o pai engenheiro russo e a mãe ucraniana, Michel perdeu os pais ainda muito jovem, vítimas de câncer, evento vocativo para os rumos profissionais que tomaria. Talvez produto direto desse enorme questionamento científico sobre por que morremos, Michel ingressou em Medicina na Universidade de São Paulo (USP) aos 18 anos, no fim da Segunda Guerra, e formou-se aos 23 anos, em 1949, já publicando artigos durante a graduação, absorto nos mecanismos profundos das patologias e quase indiferente às bases da atividade clínica. E essa chama incômoda das perguntas sem resposta, que mais queima do que aquece, permanece acesa por um século.
Ela estava lá, em diferentes cantos do mundo: nos laboratórios que dirigiu, nos escritórios em que escreveu, nos apartamentos onde morou, todos repletos de centenas de livros. Queima em cada troca, interação, seminário, almoço e café da tarde. Michel nos arrasta para dentro dessa chama, de seu universo de ensaios acabados e inacabados. Anárquico, eleva-nos à sua estatura nesse fluxo de ideias – e não há nada mais poderoso na formação de um cientista. Suprimida qualquer autoridade nesse intercâmbio, sentimo-nos iguais e parceiros na mais pura curiosidade sobre o mundo, como tantos cientistas que têm ou tiveram o privilégio dessas interações com ele.
Concluiu o doutorado em 1951. Bolsista da Fundação Rockefeller, estagiou em 1953 na Universidade de Chicago, no Marine Biological Laboratory de Woods Hole e na Universidade da Califórnia, em Berkeley, no laboratório de Daniel Mazia. Nos quatro meses no laboratório de Mazia em que foi guiado pelos “três
mosqueteiros” (como a eles se referia) Walter Plaut, David Prescott e Lester Goldstein, demonstrou, elegante e definitivamente, a passagem de RNA do núcleo para o citoplasma das células, conceito de base da biologia molecular moderna. Essa demonstração envolveu o uso de células sem núcleo, que viriam a ser, mais tarde, seu objeto de estudo. Em carta para Goldstein, Michel declarou que Mazia e Hewson Swift (professor que conheceu em seu período em Chicago) eram seus gurus americanos, que o ensinaram a ser cientista e professor e nos quais pensava recorrentemente como fonte de inspiração por sua dignidade, generosidade, amor irrestrito pela ciência e dedicação aos estudantes. De volta ao Brasil, tornou-se professor adjunto de Histologia e Embriologia em 1959, revolucionando o Departamento de Biologia Celular com Luiz Carlos Uchôa Junqueira, onde introduziu novos métodos de histoquímica e microscopia e, inspirado por Mazia e Swift, formou uma primeira geração de pesquisadores sob sua direção como Thomas Maack, Nelson Fausto e Ricardo Brentani.
Após 15 anos na USP, foi nomeado professor titular na Universidade de Brasília em 1964, mas não assumiu o cargo, tendo deixado o país ameaçado pelo regime militar e iniciando 33 anos de exílio científico nos EUA e na França. Uma comissão de inquérito da USP, alimentada por acusações anônimas envolvendo dezenas de docentes, incluindo Michel, confundiu a forte influência científica que ele exercia sobre seus alunos com subversão política. A bem da verdade, sua anarquia intelectual e aversão à autoridade, tão prezadas no seu processo de formação de cientistas, continham todos os atributos da subversão aos olhos dos brutos e dos dogmáticos. Instaurou-se processo de afastamento de diversos acadêmicos da USP, de diferentes departamentos, incluindo Michel e seu aluno à época, Thomas Maack, para quem a perseguição política visava não só os ditos subversivos, mas reformistas como Maack (e talvez Michel), que lutavam pelo fim da cátedra vitalícia familiar na Faculdade de Medicina da USP. Na reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) realizada em Ribeirão Preto em 1964, os militares prenderam Luiz Hildebrando Pereira da Silva. Maack já havia sido preso. Michel foi procurado no evento, acusado de subversão principalmente por ter participado de um encontro que nada teve de subversivo. Alertado antes da chegada de seus algozes, escapou para um refúgio em São Paulo num Fusca conduzido pelo então recém-doutor Mauricio da Rocha e Silva (filho do organizador do evento, Mauricio Oscar Rocha e Silva). Teriam ficado em silêncio na maior parte dessa viagem, amedrontados pelos tempos sombrios, ou conversado vividamente sobre alguma obsessão científica de Michel na época, desligado dos problemas mundanos que os ameaçavam, como tantas vezes ele o fez com outros jovens pesquisadores, em outras épocas?

Inspirado nos trabalhos de Zanvil Cohn e James Hirsch, que orientaram seu interesse para os lisossomos e a fagocitose, exilou-se inicialmente nos Estados Unidos, onde formou família. Atuou na Universidade Rockefeller e na Universidade de Nova Iorque, tornando-se professor titular de Biologia Celular em 1973 e acolhendo pesquisadores brasileiros como Bernardo Mantovani, Momtchilo Russo e Clara Lúcia Barbiéri Mestriner. Publicou trabalhos seminais sobre o reconhecimento de partículas por fagócitos profissionais e não-profissionais, alguns deles ao lado de sua técnica Mary-Jo De Stefano e utilizando os mais diversos modelos, como hemócitos de mariposas que, por vezes, escapavam do cativeiro e habitavam livres no laboratório de Michel, para seu grande deleite.
Julgado à revelia no Brasil, foi posteriormente inocentado. Sobre a acusação de subversão por ter participado da reunião da SBPC em Ribeirão Preto, a sentença registrou que a sua presença no congresso, como atividade subversiva, era “digna de riso”. Mas, naquela época, Michel já havia desistido do Brasil e entregado seu passaporte, revoltado com o assassinato do jornalista Vladimir Herzog. Não retornou; migrou para a França, onde integrou o Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), baseado no Instituto Pasteur, a partir de 1984, dirigindo estudos sobre Leishmania e vacúolos parasitóforos em macrófagos, inaugurando sua influente linha de pesquisa em parasitologia e orientando
nomes como Silvia Celina Alfieri e Patrícia Veras. Em 1987, tornou-se chefe de Laboratório e da Unidade de Imunoparasitologia do Instituto Pasteur, função que exerceu até sua aposentadoria em 1994. Sua presença marcou profundamente o departamento que dirigiu, como referência para os trabalhos de colegas como Jean-Claude Antoine e como testemunham os relatos pessoais de Denise Mattei, Geneviève Milon e Morgane Bomsel. O convite para encerrar o simpósio em homenagem aos 100 anos do Prêmio Nobel de Elie Metchnikoff, realizado no Institut Pasteur em 2008, atesta seu prestígio entre os pares pasteurianos e o impacto de seus estudos sobre fagocitose profissional e não-profissional, vistos por muitos como continuação lógica dos trabalhos de Metchnikoff.
Após alguns anos de retorno à Rockefeller, entre 1994 e 1997, a convite de Cohn e Ralph Steinman, período em que aperfeiçoou seus modelos de coinfecção intracelular, voltou definitivamente ao Brasil em
1997 como professor emérito da USP e juntou-se à Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) como professor colaborador. Ali continuou sua linha de pesquisa em fagocitose e coinfecções, retomando o interesse pelas células sem núcleo e pela forma como elas podem dar suporte a patógenos intracelulares; ali continuou também a orientar alunos em projetos de parasitologia e microbiologia, entre os quais Dario Zamboni. À distância, envolto no turbilhão de artigos impressos e agora também digitais, acompanhava a vida das filhas, Caroline, em Nova Iorque, e Miriam, na região parisiense. Miriam lhe presenteou com sua única neta, Eleanor, seu declarado xodó, da qual recebia vídeos que assistia encantado inúmeras vezes consecutivas. Foi Miriam, por sua vez, que o remeteu à sombra da morte – mistério inescrutável que o projetara na ciência – tendo falecido precocemente de câncer aos 48 anos, evento que Michel considerava “a vingança do câncer” e a pior coisa que já lhe havia acontecido na vida. Michel se divertia enormemente ao citar Sergio Henrique Ferreira, um de seus extraordinários alunos da FM-USP, que, ao revê-lo, o saudava sempre com a mesma provocação: “Michel, você não morre?”, ainda mais depois de ter sido atropelado no campus ao menos duas vezes. Pois bem, sua trajetória reflete não apenas uma resiliência física, mas também intelectual diante da morte. É a tal chama. Em seu computador, confinado num pequeno escritório, com fontes enormes adaptadas à sua visão, entre recorrentes perdas de arquivo, a organização em inúmeras pastas e teclados que não favoreciam sua digitação precisa nem faziam fluir tão rapidamente o que a mente processava, Michel trabalhava sem descanso. Entre ensaios sobre a metformina, dicloroacetato, propranolol e reposição de drogas para inúmeros males (sendo o tratamento do câncer seu assunto recorrente e inimigo íntimo), compilou sua “República da Ciência”, conjunto de textos e referências bibliográficas em história e sociologia da ciência jamais publicado, mas apresentado em seminários em diversos departamentos no Brasil.
Nessa República, fica claro que, para Michel, cientistas não nascem prontos: eles se formam. E que, para formá-los, não é preciso ser um grande cientista; basta conduzi-los por suas paixões, sonhos e curiosidades, desenvolver o aspecto lúdico e altruísta da ciência e, enfim, aprender junto. Também fica claro, nessa sua República, que, ao contrário dos imensos e hoje poderosos grupos de pesquisa, em que a contribuição individual frequentemente se obscurece, é nos pequenos grupos onde se desenvolve a individualidade na ciência, permitindo que cada cientista escolha as perguntas que deseja responder. Assim é trabalhar e conviver com Michel, numa “pequena ciência”, como ele a denomina, mas conduzida por grandes mentes debruçadas sobre grandes questões.
Influência duradoura na formação de cientistas, a consequência direta da sua ausência, quando seguimos nossos rumos incentivados por Michel a sermos melhores do que ele próprio, é que, sem ele, nos sentimos mais burros. Mas guardamos todos, seus alunos, aquela chama em toda sua candura.
Feliz aniversário, Professor!
- Dr. Fernando Real é pesquisador do CNRS e chefe de equipe no Instituto Pasteur de Lille. Foi aluno de mestrado e doutorado de Michel Rabinovitch entre 2005 e 2011 na UNIFESP, onde trabalharam juntos até 2014.
